Biden assume presidência dos EUA com desafio de tirar o país de crises

Um dos períodos mais turbulentos da história moderna dos EUA chega ao fim nesta quarta-feira (20), ao meio-dia em Washington (14h no horário de Brasília). O democrata Joe Biden, 78, tomará posse oficialmente como o 46º presidente norte-americano, sucedendo o republicano Donald Trump, que já terá abandonado a capital rumo à Flórida.

O empresário deixa para o político veterano uma nação profundamente dividida politicamente, assolada pelos maiores números mundiais da pandemia do novo coronavírus e ainda começando a lidar com os efeitos da crise econômica causada pela crise sanitária. Um resultado que parecia improvável há menos de um ano.

Os EUA chegam a 20 de janeiro de 2021 com mais de 24 milhões de casos de covid-19 e cerca de 400 mil mortos, as maiores cifras do mundo. Com hospitais lotados, o país já vacinou mais de 12 milhões de pessoas, mas vai ter muito trabalho para cumprir uma das principais promessas de campanha de Biden, de imunizar até 100 milhões de norte-americanos nos 100 primeiros dias de governo.

Na questão econômica, o novo presidente precisará que o Congresso aprove rapidamente sua proposta de um pacote de estímulo econômico de US$ 1,9 trilhão (cerca de R$ 10 trilhões). Atualmente, o desemprego está em 6,7% (10,7 milhões de pessoas), menos da metade do registrado no auge da pandemia, em maio (quando o desemprego chegou a 14,7%, o equivalente a 23 milhões de desempregados), mas o dobro dos números de fefeveiro de 2020 (3,5% ou 5,7 milhões).

Além disso, Biden precisará lidar com diversos problemas na esfera internacional, como o retorno ao Acordo Climático de Paris, a tentativa de recuperar o acordo nuclear com o Irã, as relações tensas com a Rússia, a China e a Coreia do Norte e a reparação de relações com aliados históricos como a União Europeia. Sem falar na crise imigratória e as tensões com radicais pró-Trump como os que invadiram o Capitólio no último dia 6 numa tentativa de impedir sua vitória.

A posse mais vigiada

A tomada do prédio onde funciona o Congresso dos EUA, durante a sessão de contagem dos votos do Colégio Eleitoral, um procedimento que sempre transcorreu em paz, elevou os níveis de tensão em Wasghington e levou a um esquema de segurança nunca antes visto. Há também a expectativa de protestos nos demais Estados.

“Acredito que vai ser um dia sem grandes problemas em Washington”, afirma Manuel Furriela, professor de Relações Internacionais da FMU-SP. “Por dois motivos: porque o próprio Trump pediu que seus apoiadores tenham um comportamento moderado, até pelo desgaste que ele sofreu, e o outro é porque desta vez vai haver uma presença muito maior da Guarda Nacional. A polícia também está com uma presença ostensiva e o FBI com certeza monitora os grupos”.

Para o especialista, as cenas de violência no Capitólio ligaram um sinal de alerta para as autoridades norte-americanas. E a posse poderia estar sujeita a episódios mais graves caso a invasão não tivesse acontecido.

“Acho que poderiam fazer um estrago ainda maior, agora as autoridades tomaram providências. Na posse de qualquer presidente há um reforço normal de policiamento. Agora que estão ampliando, você já tem ideia de quais são os grupos que oferecem mais riscos e a participação do FBI faz toda a diferença”, explica.

Parceria com o Legislativo

A relação com o Congresso será primordial para que Biden consiga implementar sua agenda. O Partido Democrata contará com maioria apertada tanto na Câmara dos Representantes quanto no Senado, mas pode encontrar atraso para aprovar os membros de seu gabinete e os primeiros projetos por conta do julgamento do impeachment de Trump, que ainda não tem data para começar.

“Pode acontecer esse congestionamento de agendar porque o impeachment no Senado é um julgamento, podem ter de ouvir testemunhas, analisar provas. E Biden precisa colocar em prática logo o pacote econômico e as medidas sanitárias contra a pandemia. Por sorte, há um consenso em torno dessas medidas e ele deve conseguir aprovar”, analisa Furriela. 

Para o médio prazo, afirma o especialista, o desafio do novo presidente será conciliar os interesses dos diversos setores que formam sua base de apoio. “São grupos muito heterogêneos, os progressistas, imigrantes, centristas, minorias… Biden conseguiu votos de todos eles e vai ter que atender da melhor forma possível. É legítimo, a sociedade tem que estar representada e esse pessoal levou muitos votos para ele”, resume Furriela.

FÁBIO FLEURY – R7

Foto: Jim Lo Scalzo / EFE – EPA – Arquivo